A verdade é que a primeira fila de Hamilton e o terceiro lugar de Charles Leclerc — que poderia até ter sido pole, não fosse um péssimo segundo setor — coloca a Ferrari como referência. A equipe chefiada por Frédéric Vasseur executou muito bem a classificação, diferente do que ocorreu na semana passada, quando sucumbiu após erros dos dois pilotos na hora decisiva. Desta vez, o britânico usou tudo a seu favor: da melhor janela de funcionamento dos pneus ao gerenciamento da unidade de potência. Lewis não vacilou e entregou uma performance sólida, para tentar o triunfo em cima também de um excelente ritmo de corrida, demonstrado principalmente pelo monegasco na sexta-feira. A sensação de surpresa da pole, importante dizer, teve mais a ver com o fato de o heptacampeão ter sofrido com falhas de confiabilidade da SF-26 — Hamilton perdeu boa parte do TL2 da sexta-feira depois que os engenheiros pediram para que ele encostasse o carro. Por isso, o piloto #44 não possui dados de simulação.

 

Sobre a corrida, a escuderia terá de traçar um plano eficaz para fugir das artimanhas da largada e da própria disputa interna. Afinal, Leclerc sai logo atrás de Hamilton e já um histórico neste ano de ruídos entre ambos por divididas de curvas. E há um ponto sério de atenção: o enorme percurso entre o apagar das luzes e a curva 1. Isso porque há uma chance grande de troca de vácuo, além de espaço quase o bastante para quatro carros brigarem até a freada. É claro que isso também vai depender dos ajustes das baterias. Ainda assim, é certo dizer: a pole do México é uma das mais complicadas e traiçoeiras da temporada. Se a Ferrari for capaz de vencer esse primeiro desafio, a corrida pode se tornar um pouco menos complexa, embora ainda equilibrada.

“Fizemos um pequeno ajuste na nossa forma de trabalhar neste fim de semana. Senti que tínhamos condições de brigar na frente. Às vezes, somos surpreendidos no Q3 ao perceber que, de repente, não estamos lá”, contou Lewis após a pole. “Mas hoje analisamos tudo: a direção do vento, os pneus, a queda na temperatura da pista ao longo da sessão e como isso afetaria os acertos necessários para fazer os pneus funcionarem, entre outros detalhes. Conquistar a pole — finalmente uma pole com a Ferrari — me faz voltar à infância, quando eu ficava sentado no sofá assistindo ao Michael conquistar essas poles”, celebrou.

“Mas chegar a este ponto da minha carreira e ainda vivenciar essa sensação especial… 105 poles! Não penso muito no número, não significa tanto assim. É como se fosse a primeira. Há alguns anos, comentei sobre a possibilidade de vivenciar uma ‘primeira vez’ novamente. A gente costuma achar que, ao chegar aos 40 anos, essas primeiras experiências já ficaram para trás. Só que, neste ano, estou vivendo essas ‘primeiras vezes’ — estou em um momento muito bom”, completou Hamilton, que largou da pole pela última vez há três anos, quando ainda usava as cores da Mercedes.

O dono do carro #44 também reconheceu a importância da largada e ratificou a primeira meta ferrarista. “O trecho até a curva 1 é bem longo, o que torna tudo muito, muito difícil. Não é uma posição ruim para se estar em primeiro, mas, claro, os outros podem aproveitar o vácuo. O Lando (Norris) fez um excelente trabalho no ano passado, então preciso tentar repetir o que ele fez”, disse o inglês, se referindo à desempenho do compatriota da McLaren, que saltou da pole e foi capaz de manter a liderança, partindo para uma vitória dominante.

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Lewis Hamilton comemorou demais a pole (Foto: Ferrari)

Hamilton também falou sobre a corrida em si e da percepção de que a etapa mexicana reserva armadilhas. “Mas também estou indo às cegas, porque, no segundo treino livre, o motor parou e não consegui completar uma simulação de corrida. Por isso, não faço ideia de como fica o equilíbrio do carro com o tanque cheio. Vou ter que encontrar uma solução técnica para isso e, amanhã, dar um jeito de contornar a situação na pista. Mas, se conseguirmos chegar à curva 1 na frente, tudo vai depender de como gerenciaremos os pneus. Espero que tenhamos um daqueles dias especiais, em que é possível tratar os pneus com todo o carinho’ — quase como se estivéssemos sussurrando para eles.”

De fato, o comportamento dos pneus será um dos pontos cruciais da prova. É aqui que entra o elemento de imprevisibilidade também. A Mercedes, por exemplo, encontrou mais problemas para colocar os compostos na janela de temperatura. Até por isso, a equipe adotou uma estratégia diferente e optou por completar duas voltas de preparação antes o giro decisivo. “Mas isso não funcionou muito bem. Não sei se foi a abordagem correta”, admitiu o chefe Toto Wolff.

George Russell tentou uma abordagem distinta na volta final e foi capaz de cravar a segunda melhor marca do Q3, apenas 0s009 atrás de Hamilton. “As temperaturas baixaram, o que nos favoreceu. Isso me deu um pouco mais de confiança para conseguir aderência nos pneus”, falou o britânico. O mesmo não ocorreu com Andrea Kimi Antonelli, que pode ser tornar campeão neste domingo, mas que vai partir do quarto lugar. O italiano se queixou dos pneus e da aderência. “Tive dificuldades para sentir bem os pneus no Q3. Simplesmente não estava muito confiante. Estava um pouco tenso, não vou mentir. Foi uma volta ruim, muitos erros”, reconheceu o líder do campeonato.

Mesmo assim, a Mercedes foi capaz de se colocar à frente da Red Bull e da McLaren, o que reforça a ideia de que a corrida mexicana caminha para uma disputa aberta. “Largaremos em segundo e quarto lugares. É a posição menos favorável, mas acredito que seis carros podem vencer amanhã”, falou Wolff. E ele tem razão.

Os outros postulantes estão entre a equipe taurina e os papaias — Norris é sexto e exibiu também uma performance das mais consistentes nas simulações de corrida. As esperanças do time inglês estão no atual campeão, diga-se. Já Max Verstappen surgiu muito forte ao longo da classificação, como de costume. A esquadra dos energéticos seguiu promovendo mudanças importantes no RB22, mas a volta final do neerlandês lhe tirou a chance de largar mais à frente. Max encontrou um Norris lento no fim do giro decisivo e não foi capaz de alcançar a pole. Somando a isso ainda há a punição que o tetracampeão terá de cumprir após o incidente com Liam Lawson no TL2. Resultado: Verstappen vai começar a corrida em quinto, mas com um ritmo em condição de prova dos mais competitivos.

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Max Verstappen é um candidato à vitória no México (Foto: Red Bull Content Pool)

“Cheguei à curva 12 e peguei ar sujo porque eles estavam pilotando muito devagar, mas a volta foi boa. No geral, a classificação foi muito forte”, disse Max. “Na saída da curva 12, não acreditei no que vi quando avistei o carro à direita (Norris). Você perde a referência de frenagem, entra na curva em um ângulo um pouco diferente do ponto de frenagem e, em uma curva tão fechada, você não pode se dar a esse luxo. Foi aí que travei as rodas.”

“Mas, com certeza, estávamos na briga pela pole, que para mim é a mais importante, porque durante todo o fim de semana não estive satisfeito com o carro. Na classificação, conseguimos melhorar bem o carro”, completou o piloto #33, que deve parecer bem desde a largada neste domingo.

Em termos de estratégia, a Pirelli selecionou os compostos C3 (duro), C4 (médio) e C5 (macio) para o fim de semana. E de acordo com a fornecedora italiana, as táticas estão em aberto. Há uma sensação de que o plano de uma única parada seja suficiente, embora não se descarte a opção de dois pit-stops, em combinações de médios e macios.

“As equipes podem optar por largar com pneus médios e trocar para os macios entre as voltas 35 e 41, mantendo-os até a bandeirada. Nesse cenário, o gerenciamento de pneus continuará sendo um fator importante, apesar dos níveis de degradação relativamente baixos. A estratégia alternativa de duas paradas envolveria largar com pneus macios, seguido por um stint com pneus médios e um stint final novamente com pneus macios. De acordo com nossas simulações, não há diferença significativa no tempo total da corrida entre essas duas opções”, afirmou Dario Marrafuschi, diretor da fabricante de Milão, que descartou o uso do pneu duro.

O asfalto renovado em boa parte do circuito também adiciona uma variável: a aderência pode evoluir durante a prova, alterando o equilíbrio entre os carros. Na Cidade do México, a menor densidade do ar reduz a eficiência aerodinâmica e a capacidade de refrigeração, de modo que andar próximo de outro carro pode custar desempenho adicional. Portanto, não há só a expectativa de uma briga múltipla no Hermanos Rodríguez, há também uma dose do imponderável, com o adendo particularmente especial de que a F1 está prestes a ver o mais jovem campeão da história coroado neste domingo.

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